segunda-feira, 31 de dezembro de 2018

Esperando 2019

Virada de ano é aquele momento de fazer planos e traçar metas que muitas vezes não saem do papel, do imaginário, do campo dos desejos. Li alguma vez uma frase atribuída a Albert Einstein que diz que não podemos esperar resultados diferentes se fazemos sempre as mesmas coisas. Sendo de Einstein ou não, concordo. Pensando nisto, resolvi iniciar o ano de 2019 fazendo coisas diferentes. 

Começando pelo traje. Os dois últimos anos eu passei de rosa e branco. Em 2017 (re)conheci o amor da minha vida de todas as minhas vidas e isto reforçaria a crença em qualquer superstição de que rosa é a cor do amor. Então, vamos esperar 2018 de rosa e branco novamente (o mesmo short rosa, inclusive) para reforçar este amor. O que tivemos? Um ano inteiro sem vê-lo, mas sem esquecê-lo um minuto sequer. Mantemos a superstição? Decidimos que sim. Afinal, eu confio neste sentimento. É muito intenso, é muito mágico, é muito verdadeiro.

Vamos em busca de uma peça nova (para manter a tradição) na cor rosa (que nunca foi a minha favorita). Percorri uma dúzia de lojas (sem exagero!) e não encontrei absolutamente N-A-D-A em rosa (ok, tinha uma blusa de malha que não me agradou muito mas que comprei assim mesmo porque pode ser utilizada em outras ocasiões... e  na verdade eu queria era um short ou saia rosa e a blusa branca). Só que se tem uma coisa que aprendi a fazer foi a perceber as mensagens que o universo nos manda. Em todas as lojas havia centenas (aqui é exagero) de peças na cor vermelha. 

Ora, até mesmo a minha árvore de Natal deste ano foi toda com enfeites em vermelho e branco. Sabe quando a gente começa a ter uma ideia fixa e não sabe exatamente o motivo? Foi assim com a bendita árvore. Então, entendi! Era mais uma mensagem do universo. Vista vermelho! Lembrei que no começo do mês de dezembro eu comprara um short vermelho apenas porque me encantei com o modelo e não tinha em outra cor. Tenho poucas peças em vermelho no meu armário porque acho que não combina com meu jeito discreto de ser... mas enfim, estava decidida a roupa. Faltava o local. 

Tive o insight de falar com uma amiga daquelas que a gente passa anos sem ver mas que isso não abala em nada o relacionamento. Um tanto quanto em cima da hora, mas a virada do ano seria cheia de experiências novas, cheias de "primeiras vezes": primeira vez que passava o Reveillon com esta amiga, primeira vez na praia que escolhemos (litoral norte da Bahia, região metropolitana de Salvador), primeira vez em um show do Harmonia do Samba (eu A-D-O-R-O!), primeira vez de vermelho, primeira vez hospedada em um hostel, primeiro ano que vejo chegar longe de minha cidade. Nada rotineiro... que venham os resultados diferentes!

quarta-feira, 26 de setembro de 2018

O vitral e os novos olhares

E o Facebook me trouxe este texto (publicado há um ano) nas recordações de hoje... Decidida a postagem! (Cá para nós, quando eu estou inspirada é cada textão lindo né?)

Se eu tivesse que definir este ano com poucas palavras eu escolheria apenas duas: novos olhares. Dos novos olhares surgem novas percepções, conceitos, significados, atitudes, sentimentos... Algumas vezes estes novos olhares vêm de outros olhos que não os seus. Um exemplo é este vitral. Passei anos subindo essa escada e entrando por aquela porta ali no cantinho da foto para acessar meu local de trabalho. Foram anos sem perceber o vitral. "Como assim, Conça?" "É impossível não ver o vitral". É impossível não ver, mas é perfeitamente possível não perceber. Eu não percebia. Até o dia em que, conversando com um colega sobre fotografia, ele me mostrou uma imagem que fez do vitral, com o celular mesmo. Pelo olhar dele eu percebi as cores, os detalhes, a beleza, a poesia, o valor histórico de um objeto que estava ali o tempo todo ao alcance da minha visão. 

O tempo passou e já não preciso mais subir essa escada e nem entrar por aquela porta diariamente, porque estou em outro setor. Hoje, entretanto, desci pelas escadas e percebi novamente o vitral. Não foi uma percepção como a primeira, veio como uma metáfora. Eu fui o vitral para mim mesma durante muito tempo. Eu me permitia ser como a porta, objetiva, funcional, de utilidade imediata, no canto da foto. Hoje eu sou o vitral, no centro, em destaque. 

Esta nova percepção trouxe à lembrança aquela conversa, aquele colega querido e tudo que aprendi com ele na pouca convivência que tivemos. Não foram lições técnicas, foram lições de vida. Hoje ele já está aposentado e há tempos não o vejo, mas carrego comigo os ensinamentos que ele tão generosamente, naturalmente e verdadeiramente compartilha. Conhecimento só multiplica quando a gente divide, seja ele qual for - uma teoria matemática, uma norma gramatical ou uma experiência que vivemos. Gratidão resume, admiração define. 


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terça-feira, 18 de setembro de 2018

Reflexões sobre o dia em que Gustavo Borges curtiu uma publicação minha no Instagram

Eu fui um bebê fofo e a (falta de) modéstia não me impede de sair falando isso. Eu era daqueles bebês risonhos que parecem uma boneca (ainda mais que tenho o tom de pele considerado dentro do "padrão de beleza", mas a gente deixa a questão do racismo para um outro momento). Há alguns dias eu postei uma foto de quando tinha aproximadamente 18 meses de vida no Instagram. A publicação recebeu várias curtidas. Duas delas são muito especiais para mim, mas falarei apenas de uma. Pela primeira vez na vida, uma celebridade curte uma foto/publicação minha nas redes sociais. Quem? Quem? Quem? Gustavo Borges, ex-atleta olímpico da natação. 

E por que estou trazendo isto aqui? Primeiro porque nos primeiros cinco minutos eu fiquei me achando uma celebridade também. Segundo porque depois deste período os meus pensamentos foram:
  1. Ele não é "tão celebridade" assim. Depois que encerrou a carreira sumiu da mídia. 
  2. Pode ser uma estratégia para aumentar o número de seguidores e, consequentemente, aumentar o faturamento comercial com anúncios. 
E isto me levou a duas conclusões.  Conclusão número 1: muitas vezes passamos muito tempo tentando entender os porquês de determinada atitude de alguém. Gustavo Borges curtiu minha foto no Instagram. Ponto. Qual a razão disso? São infinitas as possibilidades, talvez haja mais de uma resposta certa e... tcharam! A resposta não está comigo! Por que não curtir o momento, apenas? que diferença faz saber se foi porque ele realmente gostou da foto, se clicou sem querer, se quer mais seguidores? Acho que isso vale para (quase) tudo na vida. Conclusão número 2: tendemos a desvalorizar elogios e acredito que parte disso está justamente no fato de que elogiar "saiu de moda" na contemporaneidade. O que é uma curtida no Instagram senão dizer "gostei" ou "legal"? É um elogio, a meu ver. Temos a opção de agradecer e seguir em frente, mas o que fazemos com os elogios? Desvalorizamos. Da mesma forma que quando alguém elogia uma roupa a gente fala algo como "custou 20 reais na C&A" ou alguém elogia nosso cabelo e a gente responde com "está sujo". 

Moral da história: não fique procurando motivos para baixar sua autoestima!
Moral da história 2: aceite os elogios e também os distribua de forma sincera. Acredite, a vida fica melhor assim. 

segunda-feira, 17 de setembro de 2018

terça-feira, 11 de setembro de 2018

11 de setembro

Foi há 17 anos, mas não tem como esquecer aquela manhã de setembro. O tempo apaga alguns detalhes, mas não as sensações. Lembro que, por alguma razão, eu estava em casa e, por alguma outra razão, a televisão estava ligada, mas minha atenção não estava voltada para as imagens exibidas. Olhando de relance, vi um prédio pegando fogo e acreditava ter ouvido algo sobre os Estados Unidos. O cérebro logo deduziu "incêndio nos Estados Unidos, tomara que não haja vítimas".  A cobertura da imprensa continuava, mas creio que era alguma das histórias de Agatha Christie que me fascinava então (acredito que foi nesta época que comecei a me encantar com esta autora e raríssimas coisas eram capazes de distrair minha atenção quando começava a ler algum de seus livros - ainda  hoje é assim, mesmo quando não é primeira leitura!). 

Em um momento de pausa no que eu estava fazendo (seja lá o que fosse) eu voltei os olhos para a televisão e vi a imagem do avião invadindo uma das 'torres gêmeas", em Nova York. Eu já não lembrava do prédio em chamas que havia visto e aquilo me pareceu tão surreal que pensei se tratar de algum trailer de filme. Roteiro criativo - pensei, em fração de segundos. Voltei minha atenção para ver o nome da película, data de estreia e... Era vida real!!!!!! Inacreditável!!!!! Se alguém me contasse, eu duvidaria, mas estava vendo com meus próprios olhos (ainda que pela televisão). 

Naquela manhã de setembro, seres humanos sequestraram aviões com outros seres humanos a bordo e chocaram este mesmo avião contra um par de arranha-céus onde outros seres humanos estavam. Milhares de mortos, milhares de feridos e muita destruição foi o saldo de uma tragédia causada porque seres humanos não viam os semelhantes como tal. E não estou falando dos que sequestraram os aviões, mas dos que deram causa a isso (não justifica, apenas explica) com anos e anos de neoliberalismo predatório. Uma ferida com cicatrizes para ambos os lados. 

Aprendi nas aulas e livros de história que grandes acontecimentos marcam inícios de novas eras. Naquele 11 de setembro eu tive a sensação de que o século XXI estava começando de verdade. Somente daqui a muitos anos chegaremos a um consenso sobre ser o início de uma nova etapa e a nomearemos, mas o fato é que hoje, novamente um 11 de setembro, eu me peguei pensando em toda a onda de violência, intolerância e ódio que o ataque às torres gêmeas começou e/ou agravou. Em um momento em que um candidato com discurso parecido a estes fatores motivacionais do atentado ocupa o primeiro lugar nas pesquisas de intenção de voto para presidente da República no Brasil, meus sentimentos não podem ser outros senão a preocupação e o medo. 

A história já nos mostrou as consequências destes pensamentos nefastos. E não há lados vencedores em uma guerra de ódio. Conhecer os erros do passado é importante para afastar os erros do presente e ter um novo futuro. Por sorte Hitler não sabia disso e não aprendeu com os erros de Napoleão Bonaparte (invadiu a Rússia no inverno e também perdeu a guerra para o "General Mau Tempo"), mas não podemos contar sempre com o acaso, com a providência divina. Precisamos fazer a nossa parte e começa com achar que política é coisa para nós sim. Voto é coisa séria. Muito séria. 



sábado, 28 de julho de 2018

Caranguejo

Quando você senta para fazer uma refeição e o cardápio te impulsiona a filosofar. O que foi servido? Caranguejo. Alguém, algum dia, teve a ideia de pegar aquele crustáceo não muito simpático, cheio de garras afiadas, que vive na lama, e experimentar. E hoje, não sei quanto tempo depois, o animal tem que ser defendido por uma lei que proíbe a captura predatória no período de reprodução, a fim de que as espécies sejam preservadas, ou seja, o caranguejo caiu no gosto popular. No Nordeste, é um dos pratos mais consumidos, principalmente para acompanhar a cervejinha que ajuda a melhorar o calor do verão. 

Não é tão simples comer caranguejo. Há técnicas para a captura, transporte, limpeza, cozimento e até para saborear a carne. Eu não tenho muita habilidade, mas certamente a desenvolveria se fosse um dos meus pratos favoritos (o que não é o caso). E enquanto eu ouvia cuidadosamente as explicações da minha amiga sobre o preparo da refeição e as instruções sobre como quebrar a carapaça do bichinho, fiquei pensando que esta dificuldade pode nos afastar dos caranguejos. E das pessoas também. Aquelas que não são muito simpáticas, que estão escondidas embaixo de uma carapaça, vivendo na lama, também podem nos surpreender positivamente. Por que não acreditar neste potencial também?

sexta-feira, 27 de julho de 2018

Fico assim sem você

" Tô louca para te ver chegar
Tô louca para te ter nas mãos
Deitar no teu abraço
Retomar o pedaço
Que falta no meu coração..."



Estou em uma fase de ouvir rádio e deixar as músicas em mp3 ou as playlists do Soptify para os momentos de comerciais (às vezes eu escuto) ou quando nenhuma das estações que costumo ouvir está tocando uma música  que eu gosto (acontece...). E na semana que começou com mais um motivo para não esquecer, a canção veio reforçar a lembrança de que "o meu desejo não tem fim", que "eu conto as horas para poder te ver" e que "a solidão é meu pior castigo". 

quinta-feira, 26 de julho de 2018

"Tentei esquecer tudo que me lembra você"

Esta canção quando foi lançada "tocou até enjoar" e depois saiu da programação das rádios. Ela não faz parte da minha playlist, mas hoje estes versos me mostraram que pode fazer parte da trilha sonora da minha vida...



quarta-feira, 25 de julho de 2018

Dia do motorista

Motorista e pescador têm algo em comum: as histórias para contar! Eu nunca pesquei, mas dirijo. E tenho algumas histórias para contar neste Dia do Motorista. Todas são da época dos primeiros quilômetros. Escolhi três de muitas. Vamos exercitar a narração...

A primeira história é breve. Na verdade, nem é uma história. Um belo dia minha mão bateu em um comando do carro e uma luz azul apareceu no painel. Eu adoro a cor azul e achei aquilo lindo. Nem procurei saber onde eu tinha batido a mão, estava adorando... E achava que os outros motoristas também estavam. De repente todos começaram a sinalizar com luzes para mim e eu pensando que eram cumprimentos gentis no trânsito. Até que comecei a namorar e o namorado muito mais experiente no volante foi dirigir meu carro e perguntou qual a razão dos faróis altos. Desconhecimento, ignorância, inexperiência. Apenas estas as razões. Não fazia a menor ideia de que a luz azul era para indicar o farol alto e que estava cegando as pessoas no trânsito. Não eram cumprimentos, eram pedidos para que eu baixasse a luz. Ops!

A próxima história é também uma trapalhada. Depois de fazer o teste para tirar a carteira de motorista várias vezes eu ainda tinha trauma de estacionar quando era para fazer baliza. E foi assim que, completamente nervosa, levei horas para colocar o carro em uma vaga onde caberia uma carreta. O pensar que não seria capaz travava minhas ações. O episódio foi em um shopping e as buzinas impacientes me deixavam mais nervosa e a coisa não andava. Por sorte (ou não) estava acompanhada de uma amiga que aceitou pagar o mico de descer do carro e bancar a flanelinha. Vexame. 

E por fim, a contramão. Eu estava voltando para casa quando parei em um cruzamento. (Se você mora ou conhece Salvador, foi aquele do Hiperposto, saindo do posto). Uma moto estava na minha frente e quando o sinal abriu, eu o segui. Só que o piloto pegou a contramão em uma avenida super movimentada. Quando ele percebeu o que aconteceu, passou pelo canteiro central da avenida para a pista certa. Eu não podia fazer isso, nem espaço havia. Detalhe: eu tinha cinco meses de carteira. Fiquei desesperada quando vi os carros vindo na minha direção, mas de repente percebi que estavam diminuindo a velocidade. Pararam. A esta altura eu já tinha deixado o carro interromper de tão nervosa que eu fiquei. Um motorista desceu do carro e veio falar comigo. Perguntou o que aconteceu, se eu estava bem. Eu não sabia onde enfiar minha cara de tanta vergonha. Tentei ligar o carro mas tremia tanto que não conseguia. Ele, todo paciente, disse "nós já paramos o trânsito, pode se acalmar ou você não vai conseguir tirar o carro do lugar". Estas palavras me acalmaram instantaneamente. Liguei o carro, agradeci, manobrei e saí. Já em casa, pensei no que poderia ter acontecido e comecei a chorar. Na semana seguinte, passei novamente pelo mesmo trecho. Eu tinha a opção de fazer outro trajeto mas fiz questão de passar pelo mesmo lugar. Pensei "se eu não enfrentar vai se tornar um trauma". O sinal fechou novamente (é raro pegar ele aberto) e saí devagar, desta vez com um carro à frente. Peguei a pista certa, comemorei, gargalhei, estava feliz. Adeus, trauma. Tenho certeza de que enfrentar este medo e vencer colaborou e muito para que eu seja a motorista que sou hoje.

terça-feira, 24 de julho de 2018

O dia que não planejei ou como fiquei sabendo tudo sobre a vida de uma pessoa em duas horas

Eram quase quatro horas da manhã quando um cheiro estranho me fez acordar. Não conseguia identificar o que era, e não consegui voltar a dormir. O silêncio da madrugada torna todos os sons muito perceptíveis e assim eu ouvia uma espécie de estalo com uma certa frequência. Levantei e não demorei a descobrir que era a geladeira tentando ligar, mas sem êxito. A esta altura, a única coisa que eu podia fazer era esperar o dia clarear para adotar alguma providência. 

Pouco depois das seis da manhã eu já estava pedindo a amigos (os que sei que acordam cedo), via mensagens pelo WhatsApp, o contato de algum técnico de refrigeração. Um deles perguntou se eu não tinha nenhum seguro e eu lembrei que sim! Liguei para a seguradora residencial e solicitei o reparo. Fui informada que só havia horários disponíveis para agendamento na quinta-feira. Expliquei que era uma emergência, que a geladeira estava repleta de alimentos (se não fosse assim não teria graça) e que quando começasse a perder temperatura tudo estragaria. O conceito de emergência da seguradora é diferente do meu. O máximo que me ofereceram foi agendamento para amanhã. Ainda não satisfazia a minha necessidade, que era de atendimento imediato. 

Tentei a seguradora do automóvel e descobri que minha apólice não cobria reparo em eletrodomésticos. Já passam das sete horas da manhã. Decido não ir para a faculdade. De dentro da sala de aula eu certamente não resolveria o problema. Já passam alguns minutos das sete horas. Peço ajuda no grupo do condomínio do WhatsApp e dois vizinhos me indicam técnicos de refrigeração. Resolvo aguardar o horário comercial e pontualmente as oito eu mando mensagem para ambos. Resolvo pesquisar na internet um telefone de uma empresa especializada e encontro. Ligo para uma delas que anuncia que aceita todos os cartões (quem mais me salvaria com uma despesa extra não prevista no final do mês, além do crédito???).  Esta empresa me atende, explico a urgência para a atendente e menos de uma hora depois meu interfone tocava anunciando a chegada do técnico. Ele deu o mais grave dos diagnósticos: motor! 

A esta altura o WhatsApp já estava bombando de perguntas, palpites, sugestões, recomendações... Decidi fazer o serviço com a empresa mesmo com o "protesto" de alguns amigos que achavam melhor comprar uma geladeira nova. Eu não cogitei esta opção naquele momento. Nenhuma loja me entregaria o produto de imediato e geladeira não é algo que se guarde na bolsa e transporte facilmente, ou seja, o que resolveria meu problema era a substituição do motor (minha geladeira é antiga, tem motor ao invés de chip). Autorizei a execução do serviço e o técnico foi buscar as peças e material de trabalho. Voltou perto de meio-dia e terminou pouco depois das 14h. 

Em duas horas, ele me contou toda a vida dele - enquanto trabalhava. É de Recife, está morando em Salvador há quatro meses. A empresa tem filiais em todo o Nordeste, por isto ele também já trabalhou em Fortaleza e Natal. Contou-me que, em Fortaleza, a primeira coisa que viu ao desembarcar na cidade foi um assalto. Em Salvador, viu um assalto na porta de casa, mas não no primeiro dia. Na cidade natal, já estava morando sozinho. Dois meses depois que mudou para a Capital baiana precisou voltar às pressas para Recife porque a casa onde morava foi arrombada e vários pertences levados. Em Salvador, mora em um apartamento com outros três colegas (todos da mesma empresa) mas prefere ir morar sozinho porque os companheiros são muito bagunceiros. Já alugou um lugar para ficar mas ainda não se mudou porque não comprou geladeira, fogão nem televisão. A televisão era a prioridade na compra, mas aí o celular quebrou e ele já não sabe o que fazer. A futura vizinha quer que ele mude logo porque quer companhia. Afinal, "morreu um morador há menos de um mês e ela tem medo de fantasmas". 

Ainda fiquei sabendo que ele começou a trabalhar "muito novo" porque o pai mandava "para não ficar em casa sem fazer nada e pensando no que não presta". Tem um irmão e duas irmãs. Uma é solteira e farmacêutica. A outra é cassada e precisou abandonar a faculdade de Veterinária porque teve filhas gêmeas em uma primeira gravidez e outra com microcefalia (grave) na segunda gestação. Foi com o cunhado que ele aprendeu a fazer pão e trabalhou um tempo como padeiro. Depois, o cunhado mudou de profissão e ele também. Ajudante de caminhoneiro ( o cunhado), rodou Pernambuco de norte a sul e de leste a oeste. Providenciou a habilitação para dirigir caminhão mas não foi contratado. E seguiu em frente. Foi trabalhar na parte de açougue de uma grande rede de supermercados e ficou por aproximadamente um ano na empresa. 

Então, entrou para o ramo da refrigeração. Saiu da primeira empresa onde trabalhou porque foi assediado pelo chefe. Na empresa atual está ha mais de três anos. Neste período foi pai de uma menina que nasceu prematura (seis meses) e viveu apenas uma semana. Depois disto, o relacionamento com a mãe da menina terminou. E ele não sabe se quer filhos, acha muito complicado criar nos dias de hoje. 

O tempo ia passando, e mais confissões eu ouvia. Fiquei sabendo de um amigo dele que teve a perna amputada em um acidente de moto. A outra ocupante da moto, uma mulher, não sobreviveu. E foi assim que a esposa do rapaz ficou sabendo que ele tinha uma amante (a vítima fatal) mas perdoou e eles seguem juntos. O técnico de refrigeração não perdoaria uma traição...

Apesar de já ter sido padeiro, ele não gosta muito de pão. Prefere cuscuz, não troca por nada. E sabe fazer cuscuz. E pão também "de todos os tipos". E sabe fazer o "bolo de rolo" tão famoso da terra natal. Em Salvador, não teve coragem de comer o quitute mais conhecido da Capital da Bahia: o acarajé. Motivo? Medo de ter camarão na massa. Ele é alérgico. E se tiver que ir tomar remédio na veia no hospital vai ser um problema porque ele "morre de medo de injeção". 

Torcedor do Náutico, também gosta do Carnaval de Pernambuco,  mas quer conhecer o de Salvador porque "dizem que é maravilhoso". Gosta muito de relógios e ficou muito chateado porque as pessoas que invadiram a casa onde morava em Recife levarem três modelos de relógio que ele gosta muito. Levaram também as "roupas de marca", a televisão e o ar-condicionado. Este último ele recuperou. Soube que estava na casa de um homem e foi lá falar com ele. A princípio, o rapaz não quis devolver porque pagou por ele, mas quando se ameaçou chamar a polícia... 

Sobre Salvador, ele acha algumas coisas mais caras e outras mais baratas que em Recife. Utiliza o aplicativo Waze para atender os chamados de visitas técnicas mas fica com medo de que os mapas o guiem para locais perigosos. Contou-me que foi a uma comunidade fazer um serviço e na saída da casa do cliente um homem apontou uma arma para ele e disse que estava quebrada e perguntou se ele consertava também. Como o homem riu, ele brincou também e saiu "o mais depressa possível". 

Talvez eu tenha este dom de deixar as pessoas bastante à vontade. Elas acabam me contando muitas coisas pessoais. Depois do técnico de refrigeração de hoje eu só desejei que se for algo natural em mim que assim permaneça para que seja muito útil na carreira de psicóloga. O papo estava ótimo mas ele terminou o trabalho. No final da contas, o serviço foi bem feito, a geladeira voltou a funcionar perfeitamente. Recomendo a empresa e o técnico. Passaram no meu controle de qualidade.


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segunda-feira, 23 de julho de 2018

Os sete pecados capitais - episódio 5

A ira é a raiva descontrolada. O ódio, o rancor. É um sentimento socialmente condenável e por isto mesmo é difícil admitir que sentimos raiva. Entretanto, é importante sentir raiva. É importante admitir que está sentindo raiva e decidir o que você vai fazer com ela. São duas as possibilidades. Na primeira, você decide se deixar dominar pela raiva. E isto não necessariamente significa que você precisa ter atitudes como a de Michael Douglas no filme "Um dia de fúria" e transformar toda a raiva em agressividade física. Você pode usar a raiva para se automotivar, por exemplo. Na segunda possibilidade, é você quem domina a raiva. Respira fundo, conta até dez e o autocontrole entra em cena. Então, você racionaliza o sentimento. Isto pode ser bom, mas pode não ser também. Muitas vezes, quando algo não explode... implode! E guardar ressentimentos não é bom. 

Resumindo: todos os sentimentos são importantes. E isto inclui a raiva, a tristeza, e outros que consideramos ruins, negativos, inferiores. Não são. Eu não me permitia sentir raiva justamente por estas razões, mas ultimamente descobri que ajo muito "implodindo" a raiva dentro de mim. E aprendi também que posso transformar o sentimento ruim em bom, como expliquei no parágrafo anterior. A vida é um eterno aprendizado e eu realmente adoro as lições que ela me traz.