Há exatamente um ano eu era submetida à primeira cirurgia da minha vida para a retirada de três miomas uterinos. O maior deles tinha oito centímetros de diâmetro e em decorrência do tamanho deste "mocinho" não pôde ser feito um procedimento mais simples. Falando a grosso modo, "caí na faca". Praticamente uma cesariana. Se eu disser que estava 100% tranquila, estarei mentindo, mas estava 90%. Havia uma certa tensão pela anestesia, mas procurei esvaziar minha mente de pensamentos ruins e atrair boas energias para o antes, durante e depois da passagem pelo centro cirúrgico. "O pensamento parece uma coisa à toa", como diz a canção, mas tem um poder enorme!
Cheguei para a internação antes do horário marcado. Depois de preencher duzentas fichas e responder quinhentas perguntas, fui para o apartamento aguardar a hora da cirurgia. Não estava com fome, apesar do jejum. A equipe toda me perguntava a razão de eu estar me submetendo a uma cirurgia e eu respondia de forma brincalhona "porque minha médica mandou". Gostei bastante do atendimento do hospital, sobretudo porque me perguntaram sobre alergias e preferências alimentares e pude aproximar as refeições do conceito de saudável. Eu entendo, mas não aceito o excesso de alimentação industrializada em um local onde se fala de saúde. Pedi iogurte natural, providenciaram.
Aproximadamente meia hora antes da cirurgia me deram um comprimido para me deixar sonolenta, mas, como eu não estava relaxada, pela primeira vez na vida o efeito não foi imediato. Fui acordadíssima para o centro cirúrgico, já deitada na maca. Lembro de muitos detalhes, o que faz com que eu mesma me surpreenda com a minha memória. Lembro que brinquei com o maqueiro, dizendo que se ele não pilotasse direito ia pedir a cassação da habilitação dele, lembro que pedi meias porque sinto frio nos pés e me aqueceram cuidadosamente. Brinquei que precisavam de um estilista para fazer uma touca mais fashion para os pacientes. A médica chegou, elogiou meu bom humor e foi se preparar. O anestesista deu uma injeção e eu não vi mais nada.
Despertei sentindo um leve tapinha no rosto, e tenho uma vaga lembrança de ouvir uma voz aliviada dizendo que eu estava acordando. Outra pessoa falou que era para ver se eu estava consciente e a que me acordou falou "você sabe onde está?" Eu respondi "no hospital". Ela falou "isso, a cirurgia já acabou, estamos levando você para a sala de recuperação da anestesia". E eu "cadê o mioma?" Com um olhar perplexo, ela respondeu "foi para estudo". E eu, indignada "sem que me deixassem ver?". Ela sorriu, e disse, "é apenas uma bola de carne, para que você queria ver?" . Eu "moça, você vê mioma toda hora e sabe que ele é uma bola de carne, eu não". Um pouco frustrada, fiquei na sala de recuperação da anestesia. Ouvia um homem ao lado urrando de dor, mas meu quadro era indolor.
Alguns minutos depois, vieram me perguntar se eu já estava sentindo as pernas. Eu respondi "somente a esquerda". Mais algum tempo, e a direita deu sinais de vida. Quando me pediram para mexer as pernas e eu consegui, fui levada de volta ao quarto. Estava me sentindo muito bem e tenho certeza de que todo o carinho que recebi contribuiu muito para que a cirurgia fosse um sucesso. E a recuperação também. Foram tantas orações, ligações, mensagens, que certamente trouxeram uma energia muito boa para este momento e tudo correu muito bem.
A primeira coisa que fiz quando voltei ao quarto foi pegar o celular para mandar uma mensagem para ele, o amor de todas as minhas vidas, dizendo que estava tudo bem e que em breve estaria novamente em seus braços. Tenho certeza de que a resposta dele foi o melhor analgésico daquela noite. Meus olhos sorriam, como sempre acontece quando penso, vejo, falo com ele.
A médica foi falar comigo, olhar o curativo e dizer que voltaria no dia seguinte, e me deram comida. A dor ainda não tinha aparecido, mas surgiu em dois momentos. Primeiro quando uma enfermeira me ajudou a ficar de pé. Fiquei tonta e ela me ajudou a deitar novamente. Depois, de madrugada, a dor apareceu com toda a força quando a sonda apresentou algum problema. A enfermeira demorou alguns instantes que pareceram uma eternidade mas depois que o problema da sonda foi resolvido eu dormi tranquilamente. Na manhã seguinte, percebi que sentiria dor nos momentos de sentar e levantar e que não era uma dorzinha boba. A enfermeira me ajudou a levantar, caminhar, tomar banho.
Em seguida, a médica chegou para me avaliar. Só então ela me disse que eu quase não sangrei na cirurgia e que ela esperou que eu sentisse muita dor porque o corte foi menor que o mioma e ela teve que ficar puxando de um lado para outro para ele sair. Ficou até surpresa de eu dizer que só sentia dor para sentar e levantar. Algum tempo depois, eu deixava o hospital. Em casa não tinha comida pronta e eu fui almoçar no shopping. Oi?! Isso mesmo. A médica falou que não me queria sentada o dia todo, que eu precisava caminhar. E já fiz isso de imediato. Era um sábado.
A "travessura" foi comportada. Logo após o almoço eu fui para casa e fiquei de repouso. A médica mandou caminhar mas o sentar e levantar incomodavam bastante e não fui tão andarilha neste primeiro dia. Minha recuperação foi ótima. No segundo dia eu já havia desenvolvido a técnica para sentar e levantar sentindo o mínimo possível de dor. No quarto dia, as dores começavam a se despedir de mim. Estava realmente me sentindo muito bem. Dois dias depois da cirurgia, cozinhei. E a cada duas horas levantava e andava pela casa, depois voltava para o quarto e repousava.
Li dois livros no período de licença médica. Trabalhei também. O notebook e o celular ficavam ao lado da cama. Uma semana depois era a revisão com a médica. Fui dirigindo! Ela tirou o curativo, disse que sabia que minha recuperação seria ótima porque minha pele é boa. Pedi para ela me liberar para fazer Pilates e ela quase me coloca na camisa de força (risos).
Depois de alguma negociação, ela me liberou para voltar ao curso de espanhol mas recomendou que eu não subisse/descesse escadas, não me abaixasse nem pegasse peso. Eu estava me sentindo melhor a cada dia. As dores para sentar/levantar já tinham praticamente desaparecido. E conto tudo isso não para exibir minha memória com a riqueza de detalhes, mas para dizer que este episódio me trouxe dois grandes aprendizados sobre a força do pensamento e a força do amor. Ah, o amor. Demorei a perceber, a entender e a aceitar que ele transborda em mim e rege todas as minhas ações.
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