segunda-feira, 12 de fevereiro de 2018

Tuiuti fazendo História

A modesta escola de samba "Paraíso do Tuiutí" fez história no Carnaval carioca com um enredo sobre escravidão repleto de críticas sociais e políticas no desfile da noite de ontem. Reforma trabalhista, um vampiro com a faixa presidencial e os manifestoches (manifestantes fantoches) nas alas e carros alegóricos fizeram as arquibancadas entoarem o famoso "Fora Temer". Ao vivo, em rede nacional de televisão, a coragem e a ousadia de uma escola pequena, sem muita tradição, que roubou a cena no primeiro dia de desfiles do grupo especial das escolas de samba do Rio de Janeiro.

O belo samba enredo fala de uma coisa que sempre questionei: o fim da escravidão. Em tese, terminou, mas na prática vemos uma versão moderna. Da senzala para a favela. Sem oportunidades, com preconceitos inúteis. Os negros que tanto fizeram e fazem pelo progresso do pais. Escravos somos nós de um pensamento perverso que se arrasta por séculos, que fere, que humilha, que maltrata. Somos todos humanos, iguais na nossa insignificância isoladamente. Só fazemos sentido em grupo, em comunidade, cada um do seu jeito.

Depois de "Ratos e urubus larguem minha fantasia", embalando a antológica apresentação da Beija-Flor de Nilópolis em 1989, não me lembro de tamanha repercussão. Nas redes sociais, nos portais de imprensa (até mesmo nos governistas não oficialmente declarados) não se comenta outra coisa. Carnaval não é momento apenas de encher a cara de cachaça e agir como se não houvesse amanhã. Até porque há um amanhã que pode ser ruim para todos se continuarmos na inércia e deixando estar para ver como é que fica. Urna não é lugar de protesto, é lugar de consciência. 

E o Carnaval funciona muito bem para atiçar o pensamento crítico, que deve durar o ano inteiro. Sim, são várias questões envolvidas e não esgotaremos o assunto em uma postagem, mas gosto deste Carnaval que faz pensar e que não apenas entretém. Por aqui, em terras soteropolitanas, segunda-feira é o dia da tradicional "Mudança do Garcia", um bloco que não é bloco. São moradores do bairro do Garcia (vizinho ao circuito central do Carnaval, que está sendo revitalizado a partir deste ano com verba pública e polêmica) e de outras localidades que vão às ruas com fantasias, cartazes e faixas com críticas também sociais e políticas. Já que é para ser política de pão e circo, a gente também quer o pão, porque no Brasil há muito só temos o circo. 

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