Por alguma razão que desconheço, meus sapatos nunca me incomodam no primeiro ou segundo uso. Há algumas exceções, claro, elas existem para tudo na vida, mas a regra é que os machucados no calcanhar ou os apertos no dedão (em geral os incômodos mais frequentes para mim) apareçam após alguns meses. Isto quando eles, os meus sapatos, duram alguns meses. Outra regra para os calçados de minha propriedade é serem quase descartáveis. E quanto mais eu gosto do danado, mais rápido ele se destrói. Seria Lei de Murphy 100% pura essa afirmação se não fosse um pequeno detalhe: tendo a pegar o primeiro par que vejo pela frente e isto acaba impedindo um "rodízio" maior no uso.
Sobre a questão da durabilidade dos meus calçados, sempre que penso nisto lembro de um romance de José de Alencar chamado "A Pata da Gazela", que eu li lá na adolescência e pertence ao segundo período do Romantismo no Brasil. A história apresente um homem que tem fetiche por pés femininos e se encanta com um sapato que deixam cair na importante Rua do Ouvidor - no Rio de Janeiro do século XIX. Não vou detalhar a história, mas recomendo a leitura.
Detendo-me no ponto que me interessa, quando o homem encontra o sapato, ele pensa, a princípio, que pode ser um calçado infantil (pelo tamanho pequeno). Quando analisa mais detalhadamente, ele tem certeza que não é de uma garotinha por uma razão: o desgaste é na sola e não na superfície. Segundo o personagem, as crianças gastam mais a superfície do calçado enquanto os adultos gastam mais a sola. O jeito de andar é diferente, portanto.
Olhando meus pares de sapato, o que percebo é que em todos a sola está intacta e a superfície começando a se destruir ou já completamente destruída. Se José de Alencar estiver correto, eu caminho como criança (não falei que sempre há uma exceção na regra?). Não sei se é bom ou ruim.
Hoje calcei um par de sapatos já com um certo tempo de uso e pela primeira vez na vida eles machucaram um de meus pés (direito). Curativo feito, incômodo sanado, metáfora pensada. Sim, mais uma metáfora. Quantas vezes alguma coisa demora a nos incomodar? Em qualquer aspecto da vida... Quantas vezes demoramos a perceber que algo está nos machucando? E quando percebemos, o que fazemos? Colocamos cicatrizes nos ferimentos da alma também? E o que fazer com os sapatos, com a causa do sofrimento? Deixar de lado? Substituir? Cada um encontra suas respostas. Eu não desisto fácil das coisas nem das pessoas. Hoje o curativo foi no pé, mas será que não há algo que possa ser feito no sapato para que ele pare de incomodar?
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