quinta-feira, 5 de abril de 2018

A futebolização da política

Ainda não me acostumei com a "futebolização" da política. Às vésperas do dia do jornalista volto a me questionar sobre o papel da imprensa, da função social do jornalismo. Muitas das coberturas do julgamento do pedido de habeas corpus do ex-presidente Lula no Supremo Tribunal Federal foram realizadas no estilo "lance a lance" do futebol, e atualizavam os internautas sobre os principais "lances" e "jogadas" da partida disputada na Corte, quer dizer, do julgamento. Ao final de cada voto, eu esperava que aparecesse na tela o "goool" e o replay da bola nos fundos da rede, ou melhor, do voto contrário ou favorável ao que estava em disputa (a liberdade de um condenado sem provas).

Será que o número de ministros do Supremo (onze, o mesmo número de jogadores de um time de futebol) exerceu algum poder subliminar sobre a imprensa? Fato é que o placar foi apertado (6x5), mas a derrota da democracia foi referendada pela arbitragem. A decisão não é desfavorável à Lula, é desfavorável ao país. Quando se tem uma das ministras dizendo que em julgamento "genérico" para ser aplicado a qualquer cidadão do país ela votaria a favor, mas que no caso em questão votaria contra, os laços metafóricos com o futebol ficam ainda mais fortes pela inevitável associação com os "cartolas". Sem esquecer também que os manifestantes que foram as ruas pedir o fim da corrupção vestiam as camisas da Confederação Brasileira de Futebol (que coleciona denúncias de corrupção contra si). Nunca foi sobre corrupção, não se engane. 

Ainda que o futebol seja uma paixão nacional, colegas jornalistas, esperava uma cobertura diferente.  E não estou falando para fazer uma cobertura novelesca como acontece muitas vezes na editoria de política (como nos casos de Isabela Nardoni, que seguiu a linha dramatúrgica de um produto televisivo muito popular no país). Não parece "estranho" que o jornalismo esportivo tenha um aprofundamento maior do que o político, muitas vezes? Cadê as estatísticas, as histórias, as análises imparciais na medida da parcialidade humana para falar de política? Fica a pergunta no ar. 

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