domingo, 17 de dezembro de 2017

Avanço ou retrocesso?

Evolução no mundo do trabalho: avanço ou retrocesso? Este foi o tema da redação do vestibular da Universidade Estadual da Bahia, cujas primeiras provas foram realizadas hoje. Duas professoras de redação, em entrevista a um portal de notícias local, falaram sobre uma certa "armadilha" no tema, com o emprego da palavra evolução. Segundo elas, o termo pode induzir o aluno a associar evolução com avanço. Queridas professoras, permitam-me discordar e agradecer pelo tema da postagem. :)

Ainda que haja este sentido de avanço ou desenvolvimento para a palavra evolução, ele não é o único. Basta uma olhada rápida no dicionário para encontrar, por exemplo, como definição, "uma nova fase em que entra uma ideia, um sistema..." . Pronto, está aqui a linha que segui na minha redação (sim, eu estou prestando vestibular novamente). E assim não fica estranho evolução e retrocesso em uma mesma frase. A associação imediata com o avanço pode ser mais natural na adolescência pela imaturidade, mas também pela pressa e pela "preguiça mental".

De forma geral, observo que a "preguiça mental" é séria candidata a ser o mal do século. Seria ela uma causa ou uma consequência do imediatismo, da pressa desenfreada, da impaciência? Escolha um game qualquer e coloque o nome dele no Google. Em meio a onde comprar, autoria e outras informações, certamente você encontrará fóruns sobre como passar da fase x ou dicas para ganhar mais pontos etc. E para quê você vai queimar pestanas tentando encontrar a solução para passar da fase x se alguém já pensou isso por você? Está tudo ali tão à mão...

Fazer cálculos na ponta do lápis? Somente na escola (quando o professor está olhando, claro). Passado o período de avaliações e de vestibulares, recorremos à calculadora até para somas e subtrações mais elementares. Também são cada vez mais raros aqueles debates sobre o que vai acontecer na novela. Não faz muito tempo que as rodinhas de conversa analisavam perfis de personagens e fatos passados para prever o futuro da trama, mas hoje todo mundo já leu os resumos da semana e a conversa não é mais sobre o futuro, mas sobre o passado. Sobre como a interpretação de Fulano foi boa ou ruim naquela cena de ontem. Isto é um avanço? Um retrocesso? Uma evolução!

E poderia citar mais dezenas ou centenas de exemplos de "preguiça mental" mas prefiro deixar um questionamento. O que podemos esperar do futuro quando este está nas mãos de jovens que têm preguiça de pensar? São jovens conectados que leem, quase que exclusivamente, a linha do tempo no Facebook e que aguardam o livro ser transformado em filme - porque ler demora e eles estão sempre com pressa. E os adultos também, sempre na batalha com o relógio. Não temos tempo para nada, por isso precisamos das coisas facilitadas, dos tutoriais do youtube, dos artigos prontos no Google.

E se o Google evolui a ponto de você começar a escrever algumas letras na barra de pesquisa e ele já sugerir mil opções? É um avanço ou um retrocesso? Vamos seguindo os roteiros, os "passo-a-passo", nada fora do script. Até que nos deparamos com uma redação (em seleções ou para fazer um requerimento qualquer ou mandar um e-mail comercial) e não sabemos o que escrever. Mesmo que o professor tenha ensinado o "esquema" de dividir o texto em não sei quantos parágrafos, colocar não sei quantas linhas em cada um, não temos "músculos" para preencher o "esqueleto". Não temos ideias, não temos argumentos, não temos vocabulário, não sabemos as regras de concordância, não temos conhecimento. Ah, mas temos um diploma! Avanço ou retrocesso? 

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