Ser jornalista era um sonho de infância. E não encontro palavras para descrever a emoção que se sente quando um sonho é realizado. Oficialmente, sou jornalista há oito anos - meu tempo de conclusão da graduação. Os jornalistas que amam a profissão costumam falar que não a escolheram e sim foram escolhidos por ela. Há um pouco (pelo menos) de verdade nessa afirmação. No meu caso essa escolha veio bem cedo, nos primórdios da minha existência. Parafraseando Cazuza, "nossos destinos foram traçados na maternidade". "Paixão cruel, desenfreada".
Acho que já nasci falando, mas ler e escrever aprendi aos quatro anos. Tenho uma breve lembrança da sensação de independência (maravilhosa) que a alfabetização nos traz. A ameaça do "se você não fizer isso não vai ter estória antes de dormir" ganhou um novo sentido. Não significava mais que não me contariam uma estória e sim que confiscariam meus livros!
Acredito que tenha sido nesta mesma época que eu tenha me encantado com os telejornais. Cid Moreira e Sérgio Chapelin no comando do Jornal Nacional tinham em mim uma espectadora assídua. Aprendi um pouco de Geografia, de Economia, de Língua Portuguesa, diante da televisão. Desafiava o perigo toda vez que "mandava" minha mãe fazer menos barulho ou falar comigo depois porque eu estava assistindo ao noticiário. E passei a ter umas "conversas de adulto", como diziam.
O Plano Cruzado foi lançado e eu "corrigia" as pessoas quando elas empregavam incorretamente os termos ou conceitos que a televisão me ensinara. Ágio, inflação, gatilho, tudo na ponta da língua. Quando me faziam a clássica pergunta "o que você quer ser quando crescer?" eu respondia sem pestanejar: repórter. Os olhos ingênuos de criança viam no jornalismo a missão de contribuir para a formação cidadã (certo, eu não tinha essa consciência na época e apenas achava "legal" compartilhar informações e descobertas com outras pessoas, o que, na prática, é quase a mesma coisa).
Os anos passaram e meu amor pelos telejornais só aumentou. Conquistei o direito de ver os noticiários de outras emissoras desde que não atrapalhasse o horário das novelas. E comecei a perceber diferenças entre o conteúdo e a forma que as notícias eram apresentadas em cada canal. A objetividade não era assim tão objetiva.
Na época do ensino médio, a professora de Redação pediu que fizéssemos um texto sobre algum tema que estava em pauta. No dia de devolver as redações corrigidas, ela me perguntou "de que jornal você copiou isso?" Não sei se era maior minha indignação ou minha revolta, mas meu autocontrole me fez responder apenas "de jornal nenhum, de lugar nenhum". Ela deve ter percebido sinceridade nas minhas palavras e disse que me daria uma segunda chance. Na aula seguinte, escolheu outro tema e mandou que eu fizesse uma redação em classe. Eu fiz, contrariada, mas fiz.
E alguns dias depois veio a correção com um pedido de desculpas e uma nova pergunta. "Você já pensou em fazer jornalismo? Você já escreve de forma jornalística". Estava escrito, literalmente. Chegou o vestibular, mas na época não tinha uma faculdade em cada esquina, como hoje. Jornalismo só era oferecido pela Universidade Federal da Bahia (UFBA) e para uma estudante vinda de escola pública era impossível ser aprovada em um dos cursos mais concorridos do vestibular.
Na primeira tentativa, confirmei o que diziam as estatísticas e a crença popular. Muitos consideravam uma façanha (e ousadia) ter sido aprovada na primeira fase da UFBA. Eram poucas instituições de ensino superior, como eu falei, mas não uma única. E lá estava meu nome na lista de aprovados da Universidade Católica, para o curso de Publicidade e Propaganda. Eu era a única aluna vinda de escola pública na sala e muitos diziam que eu teria dificuldade de acompanhar o curso pela diferença na qualidade de ensino quando comparado à rede particular. Minhas notas sempre estiveram entre as mais altas e meu caderno era uma espécie de "apostila" para a turma toda durante todo o curso.
Precisa dizer mais alguma coisa? E como a intenção não é escrever minha biografia (ainda), vamos encurtar o post, dar um salto no tempo. Dez anos depois de concluir a graduação em Publicidade, eu recebia das mãos do diretor da Faculdade de Comunicação da UFBA o meu tão sonhado diploma. Enfim, jornalista. Sabe aquela história do "não sabia que era impossível foi lá e fez"?
Não entrei na faculdade com a visão romântica de que minha caneta mudaria o mundo nem com a ideia glamourizada de que me tornaria rica e famosa com o jornalismo. Entrei com a certeza de que tinha a missão de fazer a diferença na vida das pessoas. Oito anos depois de graduada, tenho uma pequena coleção de frustrações e decepções com a área.
Não é fácil ver o "jornalismo" de hoje, que não sai da redação dos jornais. O redator que segue todos os famosos em redes sociais e publica "notícias" sobre o novo corte de cabelo da cantora do momento, as férias do galã da novela ou qualquer outra coisa do mesmo nível. O redator que recebe o release da assessoria de imprensa, muda a ordem dos parágrafos e assina a matéria. Foi uma destas, inclusive, que inspirou a postagem de hoje. Em um portal de notícias local, encontrei um texto sobre o vestibular da Universidade Estadual da Bahia que achei bem escrito, completo, aqueles que alimentam a esperança de que o jornalismo de verdade vai sobreviver.
Acontece que ainda não tinha sido divulgada a concorrência e eu estava atrás desta informação. Acessei o portal da Universidade e encontrei uma notícia sobre o vestibular. Praticamente a mesma que estava no portal de notícias (um dos maiores da cidade), com a ordem dos parágrafos alterada. Eu sei como é a rotina corrida de uma redação mesmo sem ter experiência em uma, mas insisto em acreditar que a matéria poderia ser diferente, trazer um novo ângulo. Consultar especialistas, por exemplo, para entender porque a abstenção caiu neste ano. O que isto pode significar?
Apesar de tudo, o jornalismo (de verdade) ainda me encanta, mas entendi que ele pode ser apenas um aliado naquilo que considero minha missão: fazer a diferença na vida das pessoas. Entender o quanto isto me faz bem me leva a uma nova graduação e coloca o blog de novo no ar, mas a missão está apenas começando...
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