Os fogos anunciavam: 1994 começava. Eu tinha uma certeza inexplicável: naquele ano, o Brasil conquistaria o quarto título mundial no futebol. Claro que não tenho como provar que eu falei "este ano vamos ser tetra" logo nos primeiros minutos após a meia-noite. Minha única testemunha, minha mãe, não deve lembrar. E ainda que lembrasse, seria suspeita por ser minha mãe. E não foi uma previsão, uma premonição, foi um desejo muito forte de que isto se tornasse uma verdade. Esta é a questão que trago aqui novamente: a força da mente. Pode se aplicar a um título esportivo? Não sei.
O fato é que a seleção chegou aos Estados Unidos desacreditada (sim, a Copa foi sediada em um país com pouca ou nenhuma tradição e paixão pelo futebol). A convocação foi contestada, como em todas as Copas. A escalação foi contestada, como em todas as Copas. As substituições foram contestadas, como em todas as Copas. A escolha do capitão do time foi contestada, como em todas as Copas. O Brasil daquele ano tinha um meio de campo pouco inspirado na criação das jogadas, mas bem arrumado defensivamente. Os jogos não foram fáceis, quase todos vencidos por placares mínimos. Brilhou a estrela de Romário, que fez a diferença em várias partidas.
E naquele 17 de julho estávamos todos unidos em torno de um sonho prestes a ser realizado. Milhões de brasileiros com os olhos sem piscar na frente da televisão, acompanhando uma partida tensa. Uma final Brasil e Itália de baixa qualidade técnica e muita emoção. Sem gols no tempo normal. Sem gols na prorrogação. Só veríamos a rede balançar nas cobranças de pênaltis - a primeira e única Copa até aqui a ser decidida desta forma. A cobrança de Romário quase foi desperdiçada, mas não foi. Campeão também precisa contar com a sorte às vezes.... E chega a hora do craque do time italiano chutar contra o gol de Taffarel. O Brasil vencia por 3x2 e era a última cobrança da "Azzurra". Roberto Baggio, que levou a Itália tão longe naquela Copa, chuta para fora. O Brasil era tetracampeão mundial de futebol. Um título depois de 24 anos.
O tetra me ensinou muita coisa. Lições que carrego para a vida. Naquela final aprendi que devemos acreditar que é possível e persistir até o último instante. Aprendi também que podemos errar. Todos, sem exceção. Ninguém imaginava que Baggio perdesse a cobrança, mas ele perdeu. O lidar com este erro é o xis da questão. Vivemos em uma sociedade que nos cobra a perfeição o tempo inteiro. Nossos erros são julgados, são punidos, não são perdoados. Baggio é lembrado muito mais por este único erro do que por todos os acertos naquela Copa. E a Itália não estaria na final sem ele. E aprendi também que quando acontece algo para lhe deixar triste (a morte de Ayrton Senna) a vida se encarrega de compensar (o título do futebol).
Abaixo o vídeo da cobrança de Roberto Baggio, com a folclórica narração de Galvão Bueno e a marcante cena da comemoração emocionada com Pelé e Arnaldo César Coelho.
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