quinta-feira, 11 de janeiro de 2018

Quem tem fé vai a pé

Um dos festejos mais populares e famosos de Salvador é a "Lavagem do Bonfim". Tradição secular, o cortejo é um grande exemplo do sincretismo religioso soteropolitano. Sincretismo que começou lá na época do Brasil Colônia, quando chegaram os africanos escravizados para trabalhar nas lavouras de cana de açúcar. As religiões africanas sofriam bastante preconceito (infelizmente o quadro não mudou) e os praticantes encontraram nas "analogias" com os santos católicos a saída. Da mesma forma tiveram que "disfarçar" a capoeira com movimentos de dança para que não fosse percebida como luta. É, não foi nada fácil a vida dos primeiros africanos no Brasil...

O culto ao Senhor do Bonfim na Capital baiana começou no século XVIII. Conta-se que a imagem foi trazida de Portugal e instalada em uma outra igreja primeiramente. A festa teria começado justamente com um cortejo que acompanhou a mudança da imagem para a igreja onde está até hoje, em um elevado do bairro Bonfim, na Cidade Baixa: a Colina Sagrada. A lavagem das escadarias tem duas versões. A primeira diz que os párocos ordenavam aos negros escravizados que o fizessem para preparar para as festividades do segundo domingo depois do Dia de Reis. A segunda versão diz que as baianas foram proibidas de entrar na igreja e começaram a fazer o "banho de cheiro" do lado de fora, precisamente nas escadarias. Cada um fica com a versão que mais lhe agradar. 

Em tempo, antes de prosseguir, o "banho de cheiro" vem de religiões de matrizes africanas. São infusões preparadas com plantas aromáticas como alfazema e lavanda. Cada uma das plantas teria um poder especial e os "banhos" são preparados de acordo com a necessidade da pessoa: "abre caminhos", para melhorar a fertilidade ou tratar de outros problemas de saúde etc. 

Outro ponto controverso até há alguns anos era a data da festa. Com calendário móvel, era na segunda quinta-feira após o Dia de Reis, mas há pouco tempo passou a ser na segunda quinta-feira de janeiro. Durante algumas décadas o cortejo religioso era acompanhado por trios elétricos, praticamente uma prévia do Carnaval. Há alguns anos o desfile de trios está proibido. Sem os trios, a caminhada de oito quilômetros (distância do percurso entre a igreja da Conceição da Praia no bairro do Comércio e o Bonfim) sob o sol de verão de Salvador (embora hoje estivesse nublado) é um ato de fé e quase de atletismo. 

A tradição diz que quem tem fé vai a pé. Alguns correm. Há grupos de corrida que participam da festa. Uma festa com milhares de personagens. Cada um ali por uma razão. Para pedir, para agradecer, para acompanhar alguém, em busca do lado profano da festa, para trabalhar na venda de bebidas e comidas ou na cobertura jornalística. 

Baiana, soteropolitana e nunca fui à festa. Não sou religiosa e prefiro caminhar na esteira da academia ou à beira mar, sem multidões Apesar disso, adoro a cultura, as raízes, a história de Salvador (não foi sempre assim mas falo sobre isso em outra postagem). Nós temos um jeito único de ser. É difícil de explicar, mas estou sempre tentando, porque tenho muito orgulho da minha terra, da minha gente. 

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