domingo, 24 de dezembro de 2017

Já tinha memória, já tinha declaração de amor. Faltava a crônica. Uma crônica natalina.

Véspera de Natal. Famílias reunidas em clima de amor, fraternidade, união. Somente sentimentos bons. Até que a festa, propriamente dita, comece. A fraternidade é a primeira colocada à prova, assim que a ceia é servida. O clima passa a ser de guerra. Primeira batalha: conseguir pegar um bom pedaço da ave (normalmente o prato principal). Segunda batalha (esta somente para quem não gosta de uva passa): defender o pedaço da ave de ataques de outros garfos enquanto "limpa" o arroz, a farofa, a salada e tudo o mais onde elas (as passas) estiverem presentes. 

E ainda há mais duas batalhas: a da bebida e a da sobremesa. Há uma célebre frase que diz que quando a bebida entra, a verdade sai. A esta altura, o álcool pré-ceia já está fazendo efeito e ouvimos frases como "Fulaninho não sai da mesa". Grande potencial de treta, discórdia, desavença com essa simples "observação".

Aí começam as comparações de preços e receitas em relação ao ano anterior e declarações como "a ave este ano estava mais salgada" pode se referir ao tempero ou ao custo. (ou a ambos). Ah, claro, as frases de duplo sentido com o peru não podem faltar. Se foi um homem que preparou então... E nem as piadinhas clássicas que todo Natal estão presentes quando a sobremesa é servida. "É pavê ou 'pacumê'?" "É torta ou é reta?".

Outro ponto alto da noite, com grande potencial bélico, é quando começam as indiretas (ou diretas) para quem leva a cerveja mais barata (de qualidade duvidosa) mas só bebe a que os outros levaram. Se a pessoa for reincidente então... (não é uma atitude típica do Natal, as mágoas ficam guardadas o ano inteiro, acumuladas de festa em festa até que o álcool natalino extravase as emoções).

O amigo secreto é outro momento em que os bons sentimentos começam a se desintegrar. A pessoa compra um perfume importado para o amigo secreto e recebe uma caixa de bombom Garoto (nada contra a marca, só contra o objeto)... É Natal!!!! Engole o choro, segura o soco e a vontade de mandar enfiar a caixa de bombom naquele lugar. Respira fundo, coloca um sorrisinho amarelo no canto da boca e mentalmente descarrega todos os palavrões possíveis e imagináveis. E começa a planejar a vingança caso o destino faça você tirar a pessoa no sorteio do amigo secreto do ano seguinte. Vai comprar uma barra de chocolate e pronto. Ou compra somente um chocolate batom, já que o indivíduo gosta da marca Garoto (minha vingança será maligna, mestre Chico Anysio).

Mesmo se não for amigo secreto, a troca de presentes também garante discórdias que vão durar até o próximo Natal. Tem sempre aquela tia que dá um par de sapatos tamanho 40 para a sobrinha que calça 34 ou que "passa adiante" aquela blusinha que ganhou no ano passado e não gostou. Tem presente que passa pela mão da família inteira nessa brincadeira. E todo mundo sabe, e todo mundo vê, mas é Natal e a gente releva (até porque no ano seguinte vai se livrar da blusinha). 

E a "treta" não acaba quando a festa termina. Os comentários sobre a decoração "brega" ou "repetida" do ano anterior serão o assunto da volta para casa. As quentinhas levadas e o fato de ninguém ajudar a lavar a louça serão os assuntos de quem fica na casa sede da ceia. E ainda tem toda a discussão filosófica sobre a idade ideal para contar sobre o Papai Noel às crianças e os comentários sobre o especial de Roberto Carlos na televisão. Sobre o Papai Noel, não precisa se preocupar. Assim que a criança começar a ler, o Google explica tudo para ela. E sobre Roberto Carlos, se a TV Globo reprisar o especial do ano anterior provavelmente pouca gente vai perceber. 

E é sempre assim, todo ano tudo sempre igual. Na televisão, o especial de Roberto Carlos e as matérias na televisão sobre as compras de última hora, sobre as trocas que as lojas não são obrigadas a fazer (de acordo com o Código de Defesa do Consumidor), receitas para a ceia. Em casa, as promessas de que este ano vai comer menos, as discórdias, comentários, fofocas e intrigas da cerveja, da ceia, do amigo secreto. E nem falei das mensagens no grupo da família no WhatsApp. Vai todo mundo se ver, mas as mensagens chegam a cada cinco minutos durante todo o dia ...

Os discursos são sobre o verdadeiro espirito de Natal, que o que importa não é o presente e sim a presença etc etc. A ação contradiz tudo e talvez o Natal não fosse o Natal sem essa contradição.

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